sexta-feira, 20 de março de 2015

contigoando

Ligo o choveiro. A água escorre pelo meu rosto. Escuto uma voz; "Ai que agua quente, não sei como você consegue! Nossaaa"; Dou um passo atrás. Abro os olhos; Ninguém ao lado; Sorriso. Tô ficando doido.. Continuo meu ritual, da cabeça aos pés. A água quente é uma aliada depois de um duro trabalho.

Acabo de enxugar e olho a pia. Esqueci de uma etapa; Ainda tenho uma unha mascada, está explicado. Cuspo a unha e pego a escova de dentes. Alinho visualmente com a escova ao lado e tento complementar o mosaico rosa nela cravado. Impossível, são de tipos diferentes.

Cansado, sento na cama. Horas, 17:42. Notificações, "22 pessoas publicaram no Brasileiros em Sydney". Nada a me preocupar. Apago a tela e retiro a capinha; Retiro a areia das bordas internas com o mindinho. Passo na bermuda; Bato na bermuda. Limpo a poeira com o polegar no centro da capinha; Vejo uma pessoa refletida no plástico; Pisco involuntariamente; O rosto sumiu. Doidera..

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

É difícil fingir não querer voltar somente por você. Demonstrar força e perseverança quando se sente ter cometido um grande erro.

No meu simples dia-a-dia ainda lembro de ti, o tempo e a distancia ainda fazem sussurrar saudades madrugada adentro. Às vezes o meu consolo é ir até o banheiro, pegar a escova de dentes reserva e colocá-la ao lado da minha, fingindo que é a sua – e isso me faz sorrir. Faço compras pensando no que você gostaria de comer, ou qual dos pratos que me ensinou a fazer eu irei arriscar sentir seu tempero. Escuto musicas e leio  poemas que me dizem como deveria ter sido, amado e vivido. Lojas e perfumes só me apresentam seu tamanho e cheiro - como eu gostaria de poder fazer um belo laço e te entregar um presente.

Você têm na pele o cheiro secreto que eu queria sentir ao deitar, e os cabelos que eu queria sentir sobre meu rosto ao acordar. Você esbanjava tanta beleza, que quando eu estava ao seu lado, me sentia lindo também! Cansei de me perder te admirando pelo espelho, foi uma imagem que guardei dentro de de mim, seu olhar refletido enquanto passava o rímel. Um evento tão sublime, que eu fazia questão de participar. Foi o início das minhas melhores noites!

Foram tantos os sorrisos e sorvetes, cócegas e calor no quarto, jantares e filmes, sono e pé na estrada.. Houveram também brigas sem sentido, é verdade, algumas lágrimas e desencontros. Não posso te devolver os anos que passou comigo, já que eles são parte do que eu sou agora, do que eu me tornei, como um braço ou uma perna e não tenho nenhum interesse em ficar manco. Mas gostaria que ficasse também com aqueles que eu dediquei à você, porque posso dizer sem medo que foram os anos mais bem investidos até o momento.

Guarde com carinho as fotografias que tiramos e tudo aquilo que eu quase disse. Lembre-se de mim, como eu sempre vou me lembrar de você. Se puder me faça um amigo, conte me do seu novo rapaz e de como ele é divertido e consegue ficar até o final das festas, como eu nunca consegui. Acima de tudo, guarde com você o que eu fiz, não o que eu apenas pensei, sem conseguir provar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ilhado coração

Me sinto sozinho
Perdido em um longo caminho
Que não sei onde vai dar

Não é uma estrada
Não é uma trilha iluminada
É um campo aberto, cheio de descobertas

Decidi caminhar sozinho
Não há nada para me controlar
Não existe placas
Não existe onde chegar

Talvez eu devesse voltar
Caçar um cais para me ancorar
Mas todos estão lotados
 de barquinhos e navios tripulados

Por isso sigo nesse desafio
Exílio na imensidão
Louco longo caminho
Ilhado coração

Aguardo o dia em que voltarei
Preparado para reconquistar
Os cativos que deixei
Naquele que já foi o meu lugar

Não serei o rei, serei um ancião
Cheio de conselhos,
Experiente na solidão
Que descobriu que a felicidade está
Tão próximo que você possa abraçar..

domingo, 9 de março de 2014

Murar o Medo


O medo foi um dos meus primeiros mestres. Antes de ganhar confiança em celestiais criaturas, aprendi a temer monstros, fantasmas e demônios. Os anjos, quando chegaram, já era para me guardarem. Os anjos atuavam como uma espécie de agentes de segurança privada das almas. Nem sempre os que me protegiam sabiam da diferença entre sentimento e realidade. Isso acontecia, por exemplo, quando me ensinavam a recear os desconhecidos. Na realidade, a maior parte da violência contra as crianças sempre foi praticada, não por estranhos, mas por parentes e conhecidos. Os fantasmas que serviam na minha infância reproduziam esse velho engano de que estamos mais seguros em ambiente que reconhecemos. Os meus anjos da guarda tinham a ingenuidade de acreditar que eu estaria mais protegido apenas por não me aventurar para além da fronteira da minha língua, da minha cultura e do meu território. O medo foi, afinal, o mestre que mais me fez desaprender. Quando deixei a minha casa natal, uma invisível mão roubava-me a coragem de viver e a audácia de ser eu mesmo. No horizonte, vislumbravam-se mais muros do que estradas. Nessa altura algo me sugeria o seguinte: que há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas. No Moçambique colonial em que nasci e cresci, a narrativa do medo tinha um invejável casting internacional. Os chineses que comiam crianças, os chamados terroristas que lutavam pela independência e um ateu barbudo com um nome alemão. Esses fantasmas tiveram o fim de todos os fantasmas: morreram quando morreu o medo. Os chineses abriram restaurantes à nossa porta, os ditos terroristas são hoje governantes respeitáveis e Carl Marx, o ateu barbudo, é um simpático avô que não deixou descendência. O preço dessa construção de terror foi, no entanto, trágico para o continente africano. Em nome da luta contra o comunismo, cometeram-se as mais indizíveis barbaridades. Em nome da segurança mundial, foram colocados e conservados no poder alguns dos ditadores mais sanguinários de toda a história. A mais grave dessa longa herança de intervenção externa é a facilidade com que as elites africanas continuam a culpar os outros pelos seus próprios fracassos. A Guerra Fria esfriou, mas o maniqueísmo que a sustinha não desarmou, inventando rapidamente outras geografias do medo: a Oriente e a Ocidente e, por que se trata de entidades demoníacas, não bastam os seculares meios de governação. Precisamos de intervenção com legitimidade divina. O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder. Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas. A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania. Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível. Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes. Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra. Essa arma chama-se fome. Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo. Mencionarei ainda uma outra silenciada violência: em todo o mundo, uma em cada três mulheres foi — ou será — vítima de violência física ou sexual durante o seu tempo de vida. É verdade que, sobre uma grande parte do nosso planeta, pesa uma condenação antecipada pelo fato simples de serem mulheres. A nossa indignação, porém, é bem menor que o medo. Sem darmos conta, fomos convertidos em soldados de um exército sem nome e, como militares sem farda, deixamos de questionar. Deixamos de fazer perguntas e discutir razões. As questões de ética são esquecidas, porque está provada a barbaridade dos outros e, porque estamos em guerra, não temos que fazer prova de coerência, nem de ética nem de legalidade. É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha. A Grande Muralha foi erguida para proteger a China das guerras e das invasões. A Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores. Possivelmente morreram mais chineses construindo a muralha do que vítimas das invasões que realmente aconteceram. Diz-se que alguns trabalhadores que morreram foram emparedados na sua própria construção. Esses corpos convertidos em muro e pedra são uma metáfora do quanto o medo nos pode aprisionar. Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer: “Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras. E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe. Muito obrigado.

Ciúme

Eu não sou bobo, eu sei que você está ai!
Linda e deslumbrante, sorrindo e sendo cobiçada
Por vezes rejeitando babacas e de vez em quando alguém interessante.
Sei do perigo, sinto o medo, me incomoda o risco
Mas me recuso a expressar algo, sem nada poder fazer
Sem nem mesmo ter razão para evitar que este lindo sorriso se abra
Como um lindo pássaro que precisa de liberdade para cantar sua felicidade
Deixo-te livre para me trazer amor sincero..
08/03/2014

Noites na metrópole

Lúcido durante toda noite
Um só pensamento não me deixa sonhar
A cada dia que passo vendo a poluição do ar
Noto o quanto era bom
A sua companhia sob o puro luar.

Lembrança dos teus olhos

Nas profundezas da web navego a pensar
No interior dos seus olhos azuis 
Devaneios vividos em busca de ..
Um suspiro suspende o que me seduz
É chegada a hora.
09/02/2014